quarta-feira, setembro 14, 2005

Lóri


"Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse casa dele, e é. Trata-se de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem- pois nunca morou antes em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela - apesar de inteiramente selvagem, tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão. Seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo o seu focinho. Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito. A menos que ele escolha outra casa e que esta outra casa não tenha medo daquilo que é ao mesmo tempo selvagem e suave. Aviso que ele não tem nome: basta chamá-lo e ele se acerta com seu nome. Ou não se acerta, mas, uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai. Se ele fareja e sente que um corpo-casa é livre, ele trota sem ruídos e vai. Aviso que também que não se deve temer o seu relinchar: a gente se engana e pensa que é a gente mesma que está relinchando de prazer ou de cólera, a gente se assusta com o excesso de doçura que é isto pela primeira vez"
Clarice Lispector, em "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres"

5 comentários:

Anônimo disse...

Tá bem, admito que gostei do que transcreveu aqui, mas meu problema com Clarce é antigo. Vou ter que usar muito da Teresa em mim para aceitá-la.
bjs,

Mariana Mesquita disse...

Pelo menos você não é indiferente a ela... Tenho certeza de que você ainda vai se apaixonar por Clarice, um dia.
Beijo!

Anônimo disse...

Lindo texto! E vc tá, td bem?? Beijocas!

Mariana Mesquita disse...

Tudo ótimo, minha linda. Mais ainda depois de ver vc ontem! Cheiro.
Vamos marcar pra eu lhe ensinar a fazer o brógui de Jade.

Anônimo disse...

Quando li esse texto há um ano atrás, me vi nele. Sou tão assim, menina.

bjs