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sábado, novembro 25, 2006

Um Mico Publicável

Fui intimidada por Leo a escrever um post sobre um mico publicável. Ah, tenho tantos. Já postei alguns aqui, como a história da cigarra. Pensei e repensei e agora me veio à memória dois miquinhos simpáticos, "de salão". Tá, são esses que vou contar... E repasso a missão pra Di, Debi, Gio, Raimundo e Tita, pra brincadeira seguir adiante...
Eu tinha uns quinze anos, era super tímida, e comprei ou ganhei uns óculos de fantasia, pavorosos, que resolvi mostrar à minha mãe. Ela, notoriamente gaiata, enfiou-os prontamente na cara e foi assim de Candeias ao centro do Recife (algo em torno de uns 20km), encarando as pessoas. Primeiro eu fiquei desesperada. Depois, comecei a achar engraçado. Por fim, tava doida pra aderir à idéia. E foi o que fiz, para mal dos meus pecados.

Foi só botar os óculos que, no mesmo segundo, Rogério, o professor de hidroginástica de mamãe (um gato, afemaria!) emparelhou o carro conosco. Eu fiquei roxa, azul, cor de rosa. Acabei estoicamente sem tirar o maldito apetrecho na cara, na esperança de não ser reconhecida ou passar despercebida.

Não tive tanta sorte.

Depois eu soube que ele andou perguntando se "a filha de Cininha tinha problemas". Até hoje, não sei se se referia à minha parte física ou mental...
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Uns dois anos depois, outro mico memorável: estava eu, alegre e flanando, numa calourada da UFPE. Eu era enxerida, andava pelo campus todo, tinha vários amigos a quem estava ansiosa pra encontrar. Aí, de longe, bati o olho em um: era Nando, que tinha feito educação física junto comigo e estudava engenharia (bicho doido e querido que tinha um fusquinha e me dava carona sempre, o carro lotado de homens e só eu de menina, todo mundo fazendo presepada e ele dirigindo com uma cueca enfiada na cabeça).
"Nando!", pensei feliz. E corri pra junto dele. Cheguei por trás já abraçando, encaminhando um beijo... e não era Nando.
O rapazinho quase-beijado pegou e falou: "Continue!"
Fiquei azul, gaguejei, pedi desculpa e me escafedi do local.
Cinco minutos depois, dei de cara com o próprio Nando. "Feladaputa, passei a maior vergonha por sua causa!", e contei o ocorrido.
Ele olhou o cara e ficou arretado: "Oxe, aquele é Rochinha, um cába feio da peste, como é que você me confunde com ele?"
Foi lá, chamou Rochinha, me apresentou oficialmente, rimos muito os três com a história, e no final eu ganhei mais um amigo.


domingo, novembro 19, 2006

Geni, a formosa dama

Se tem algo que eu faria, caso me fosse dada a chance de entrar numa máquina do tempo, era ser mais próxima dela - Geni Balaban. Estudei com Geni os três anos do colegial. Mas ser amiga dela ia além das minhas forças: Geni era "A CDF" da sala, e quase como num filme de estudantes americanos, na escola a gente tinha papéis muito bem demarcados. Tinha a gostosa, a riquinha, a popular, o engraçado, o maluco.
Eu não era grande coisa: era a novata, a princípio, até que vieram outros novatos. Era a tímida. Era a gorducha, mas não era sequer a única acima do peso, na sala. Enfim, era um zero à esquerda tentando desesperadamente ser aceito. E ser amiga de Geni não ajudaria em muita coisa.
Ela era esquisita, ou pelo menos, a gente achava. Muito magrinha, muito branquinha, com uns óculos intelectuais pendurados na ponta do nariz. Nenhum menino queria namorá-la: era insignificante, feinha demais. Tinha mania de usar uma intejeição - "que chique!"- para se referir a qualquer coisa. Sua família não era das mais ricas e ela era responsável; por isso, estudava com constância, escrevendo com lapiseira hp em cadernos impecáveis que a turma inteira xerocava, na véspera das avaliações. Sentava na frente, alheia à risadagem e conversa do fundo da sala. Junto dela, um séquito de três ou quatro burrinhos que queriam ser sabidos ou, pelo menos, se beneficiar da rebarba de Geni, principalmente em dia de prova.
Eu sentia que no fundo era parecida com ela, mas na época minha maior preocupação era não me mostrar "CDF" e assim, ser aceita. Eu não queria ser ainda mais diferente dos outros do que me sentia. Para tanto, fingia gostar de coisas que não gostava, me sujeitava a companhias que não se interessavam por mim, não estudava e me abstinha de aparecer. E quando tirava notas boas, em português principalmente, o resto da turma não entendia como isso poderia ter acontecido. Quando passei no vestibular, com boa nota e na primeira tentativa, teve gente que se espantou.
Às vezes, eu trocava com Geni uma ou outra informação sobre livros que nem faziam parte da lista restrita da aula de literatura, e então ela sorria, meio divertida, me reconhecendo como um ET em meio à meninada inconsequente. Ninguém me acreditava como autoridade em coisa nenhuma, e isso por outro lado doía. Lembro do dia em que duas coleguinhas tiveram um acesso de riso porque eu disse que, da boca de ambas, saía um 'afluxo de besteira' - elas não conheciam o termo, e eu precisei da confirmação de Geni, que me lançou um olhar penalizado, do tipo, "elas não sabem o que fazem".
O tempo passou, e Geni se tornou apenas mais uma entre os mais de 40 coleguinhas que prestaram vestibular em 1989, e dela não tive mais notícia - a não ser pelo que me contou o Google: casou e ensina Pediatria, na Universidade Federal do Ceará.
Mas me consolo, quando penso nela, porque ao longo dos anos amadureci e nunca mais deixei de me aproximar de qualquer pessoa interessante que me aparecesse pelo caminho, com medo do que 'os outros iriam falar'. Eu mesma colei e descolei vários rótulos de mim, e não me preocupo mais em ser nada além disso. Já dá trabalho demais...
Pouco ou nenhum contato tenho com os meus colegas da época, aqueles cuja opinião era tão importante, e que eram tão diferentes de mim, e que nunca me aceitaram plenamente, apesar do meu desejo.
A vingança mais doce foi saber, anos depois, que no casamento de uma dessas coleguinhas - ao qual não fui, não lembro por qual motivo - Geni foi a grande sensação. Ruiva, poderosa, sorridente, com as curvas que só desabrocharam após os vinte anos todas evidentes num vestido colante preto, ela deixou os marmanjos todos babando por ela. E, apaixonada, e certamente melhor servida em termos tanto de carcaça como de intelecto, não quis saber de nenhum deles.

sábado, novembro 04, 2006

Cachorradas

Estava lendo um bestseller engraçadinho chamado Marley & Eu e fiquei triste. É que eu nunca tive um cachorro que fosse 'meu'. Convivi com vários mas, na verdade, sempre acabei possuindo um pouco, por tabela, os cachorros do meu irmão Gabriel, todos machos: Pinguinho, um pequinês que corria atrás das galinhas e foi roubado da nossa casa, ainda filhote. Paçoca, um miniatura pinscher que acabou sendo 'exilado' de casa. Barnard, um beagle que morreu aos 17 anos, velho como o cão. Jink, o labradoido atual. Uma única vez, nos idos dos meus oito anos, achei uma viralatinha preta dando bobeira na rua, levei pra casa, batizei de Xuxa - e a pobre morreu em três dias, mofina e triste, porque já estava irremediavelmente cheia de vermes.
Devo admitir pra vocês que ter um cachorro é um sonho secreto que vai e volta na minha cabeça, mas sempre descarto o plano: se eu não tomo conta direito nem de mim mesma, imagine de um cachorro! Ainda assim
interajo com os bichinhos, especialmente os viralatas - que refletem bem a minha essência.


Uma vez, na época de faculdade, saí debaixo de chuva do Centro de Artes e Comunicação da UFPE. Ia andando com meu amigo Alessandro e de repente dei um grito: quase pisei numa coisa escura e molhada, que achei ser um rato. Não era: era uma cadelinha bebê, desgarrada da mãe. Pensei comigo: se ficar aqui sozinha, na chuva, vai morrer. Enrolei a bichinha na toalha que trazia na mochila (era dia de educação física) e enfrentei um Candeias-Dois Irmãos lotado com ela no colo, fazendo gréia: por favor, dá licença, preciso passar com minha filha. Chegando em casa, minha mãe quis comer meu fígado, até que esclareci que não queria ficar com a coisinha, e que no dia seguinte arrumaria um dono pra ela. Aí mamãe sossegou e até ajudou a dar leite e mantê-la quentinha. No outro dia, fui cedo pra faculdade, me plantei na frente do prédio e perguntei a cada ser vivente do CAC se não queria levá-la pra casa. Acabei descolando um interessado, ao qual passei meses inquirindo sobre o estado de Neguinha, quando o encontrava de passagem. Com isso fortaleci, perante os olhos de Alex, uma imagem de sensível e humana que não descolou mais de mim, mesmo passados tantos anos.
De outra feita, estava voltando da UFRPE - de uma farra, certamente. Era quase meia noite, eu estava sozinha no ponto de ônibus, e uma viralatinha fêmea, raceada com cachorro-salsicha ('daschund'), parou, me encarou e ficou fazendo companhia. Largada, solitária, abandonada, a bichinha me comoveu até o âmago do meu ser ligeiramente alcoolizado. Quando o ônibus passou, zupt!, cedi ao impulso e carreguei a danadinha comigo. De tão semelhante a mim, batizei-a de Igual.
Igual tinha um cheiro horroroso, mijou na sala, chorou a noite inteira, soltou pêlos pela casa, roeu o pé da mesa e eu me desesperei e acabei trancando-a no banheiro. Em dois dias, arrumei um novo dono pra ela e pude suspirar aliviada. Estava livre, afinal...
O que não quer dizer que vou desistir da minha carreira de defensora dos oprimidos e da minha nobre intenção de ter um cachorro, um dia. Mas de preferência, antes quero uma casa com um belo quintal!

quinta-feira, outubro 12, 2006

Lembrança

Quando menina era um sofrimento, porque Papai Noel era invenção do capitalismo, o Coelhinho da Páscoa uma balela burguesa, e o Dia das Crianças, uma criação do comércio para vender brinquedos. Mamãe era linha dura: cortava meu cabelo curtinho pra não dar piolho, só me dava sandálias ortopédicas, e a minha vida inteira sonhei com uma calcinha bunda-rica, daquelas cheias de frufru de nylon, e ela só comprava umas lisas, feiosas, de algodão anti-alérgico. As mesmas calcinhas horrorosas e sapatos sem-graça que me dava no aniversário, ocasião em que proibia os amiguinhos de me levarem presentes.
Esta semana fui dar aula sobre a
indústria cultural para a minha turminha de Teoria da Comunicação. E a surpresa maior que tive, ao analisar a presença de marcas e etiquetas nas pessoas da sala, foi ver que nada em mim tinha uma razão consumista: escolho as coisas pelo que são, pelo material ou trabalho nelas contido, e não pelo nome pregado. Sorri e lembrei dela, das lições espartanas que me fizeram ser quem sou.
Não, minha mãe não chegava a ser um monstro: a qualquer dia do ano, se tivesse dinheiro e soubesse que eu queria muito um presente, ela me dava. E isso ajudou na construção do meu caráter, fazendo com que trocasse qualquer coisa por livro ou disco, e aprendesse a inventar os meus próprios brinquedos. Poucas mães conhecidas permitiriam que os filhos criassem sapos, como foi o caso do meu irmão e eu: além deles, tivemos cachorros, gatos, periquitos, galinhas, tartarugas, preás. As casa da minha infância tinham quintal, árvore, espaço pra correr, pra bulir. Uma delas tinha um mar verde e morno se descortinando à frente, terreno a ser desbravado pela criançada afoita, que não se preocupava com tarado, ataque de tubarão ou incidência de câncer de pele.
E para atenuar essa 'rigidez revolucionária', Gabriel e eu podíamos contar com nossos avós, especialmente Nageca, mãe de mamãe, que nos proporcionou a experiência da plena dádiva/permissividade. Uma vez, lembro de ter ido com ela à loja
Sloper, no meu aniversário, e sair de lá toda vaidosa, com três bonecas, uma bolsinha, perfumada e vestida da cabeça aos pés, e com um anel em cada dedinho das mãos. De outra feita, chegou no supermercado (num tempo em que os tais praticamente só vendiam gêneros alimentícios, vale frisar), deu um carrinho a cada um de nós, e falou: podem comprar o que quiserem. Essa permissão valia mais do que efetivamente levar a loja inteira; e no fim a gente levava só uns pacotes de biscoito, sorvete, chocolate - e eu, também uns sabonetes e uma colônia johnson, que é até hoje meu perfume favorito. Esses momentos perdulários faziam um bem tremendo à alma e eram o contraponto que a gente precisava pra sermos completamente felizes.
Hoje é dia das crianças e a menina que mora em mim não sente falta de presentes - esses eu quase nunca ganhava. Queria era ter cinco anos, andar pelada no quintal, ouvir Carequinha na radiola laranja, brincar de guerra de goiaba e dormir no beliche apertadinho, com medo do lobo que morava embaixo da cama e fingia que era chinelo quando alguém acendia a luz.

quarta-feira, setembro 06, 2006

Falando em supermercado...

Minha prima Dione quase me mata de rir e de ternura, ao relembrar o dia em que, aos oito anos, foi ao supermercado com o nosso avô Oswaldo e, ao se ver sozinha, preocupadíssima, anunciou pelo alto-falante que quem encontrasse um velhinho de cabeça branca, perdido, levasse ele até a administração.
Eu também tenho as minhas historinhas dentro desse ambiente, mas as presepadas do gênero me lembram imediatamente dela, minha mãe, que adorava esse tipo de programa e tinha um jeito peculiar de estar no mundo.
Uma vez mamãe botou o coitado do meu irmão adolescente para adiantar as compras no caixa, enquanto buscava outros produtos. No carrinho tinha um monte de pacotes de absorvente, e ele começou a ficar agoniado, vem logo, vem logo, sem querer colocar os ditos-cujos na esteira. Oxe, meu filho, que besteira é essa?, o modess não é seu mesmo?, disse mamãe bem alto, matando definitivamente o pobre de vergonha.
Outra vez, no estacionamento, um cara enfiou-se mais rápido na vaga em que a amiga dela estava tentando fazer baliza. E ainda saiu fazendo gozação do fato. Muito calmas, elas pensaram em furar o pneu ou riscar a tinta do automóvel, mas tiveram uma idéia melhor: fizeram meu irmão menor e o amiguinho, que estavam bastante gripados, assoarem o nariz pelo carro inteiro. Vidro, porta e, especialmente, maçaneta, foram cobertos por uma camada espessa de gosma verde. E elas rumaram pra outro supermercado, às gargalhadas, certas de que nunca mais o cabra ia se meter a besta com nenhuma mãe de família.
Uma das últimas peripécias foi durante a inauguração de uma megaloja em Boa Viagem. Ela adorava liquidações. Estava separando umas bermudas baratinhas pra um dos filhos, quando uma mulher mal-educada tirou algumas peças já selecionadas do carrinho (!) e, diante da reclamação evidente, grunhiu um problema seu ou guerra é guerra. Mamãe ficou quietinha, deu uma volta no corredor seguinte, e voltou sorridente: você nem precisava ser tão mal-educada, lá na frente eles botaram uma gôndola com bermudas muito mais bonitas do que essas que você me roubou. A dona, estupidamente, largou as antigas e correu pra conferir. Claro que era mentira, claro que mamãe enfiou as bermudas de volta no carrinho, e claro que se divertiu muito dando bananas explícitas pra vilã enraivecida, da fila do caixa, devidamente cercada por vários filhos preocupados com sua integridade física.

sexta-feira, junho 30, 2006

Daiane


Eram cerca de dez crianças, moradoras da Ilha das Cobras, favela pertinho daqui. Quando vim morar em Casa Forte, em 1997, encontrava com eles sempre que ia a pé, fazer compras no supermercado. Me pediam dinheiro, 'uma pratinha só'. Nunca dava. Mas sorria e conversava sempre e, uma vez, para grande irritação do segurança do mercado, levei todos para a loja e comprei um pacote de biscoito para cada um. Pouco, mas o suficiente para morrer de susto, vergonha e alegria quando, uma vez em que me encontraram por acaso no ônibus, saíram gritando 'tiiiia', assobiando e batendo palmas e me abraçando, para horror e gáudio dos outros passageiros.
Deles todos, guardo a lembrança de Daiane, mestiça bonita de pele escura e cabelos claros, irmã ou prima da maioria dos mendiguinhos da região do Shopping Plaza. Tinha uns cinco ou seis anos nessa época, e um sorriso tímido devastador. Uma vez, encontrei-a mancando. "Que foi isso, menina?" "Ah, tia, eu ia passando e o cachorro me mordeu, tive até febre", falou, mostrando o pé machucado. Me preocupei. "Você tem que ir no médico, menina, tem que tomar remédio, cadê sua mãe?", disse eu, enquanto ela sorria, conformada, sabendo que doença de pobre tem que se virar sozinha. Tentou me tranquilizar. "Nem doeu muito, tia. E eu tive sorte, sabe por que? Essa chinela é da minha mãe e é novinha, ainda bem que ele mordeu meu pé". Fui embora quase chorando, pensando nessa menininha cujo pé valia menos que uma sandália havaiana: se danificasse o calçado, certamente ela apanharia da mãe, que só aparecia na rua de vez em quando, para verificar o apurado da filharada.
Pois ontem eu acho que vi Daiane. Ela sumiu desde esse tempo - também eu viajei, fui e voltei para esta casa onde vivo mais de uma vez. Nesses anos todos, acho que vi-a uma vez só de relance, os peitinhos de moça começando a despontar. A Daiane que vi ontem tinha nos braços uma criancinha de olhos grandes, que nem ela. Ela não me conheceu, ou não me viu: estava ocupada, alimentando o bebê. E eu não tive coragem de chegar junto para ter certeza, porque uma parte irracional de mim deseja muito que Daiane não faça parte desses índices horrendos que relatam nossa miséria e que matam o melhor da nossa alma, a cada dia.

quarta-feira, maio 31, 2006

Infância - 2


Meu irmão Guilherme, aos três anos, foi matriculado numa escolinha furreca lá perto de casa. Mamãe pediu que eu o buscasse, às cinco da tarde – e que não demorasse, pois ele poderia ficar aperreado. Chegando lá, pedi pra buscarem Guilherme, no Maternalzinho. O porteiro foi e voltou rapidinho.
-Não tem nenhum Guilherme
lá.
-Tem sim, moço, ele começou hoje.
Ele foi e voltou outra vez.
-Tem não, moça.
-Tem, moço. No Maternalzinho, eu tenho certeza.
O negócio começou a ficar chato, eu insistindo de um lado e ele negando do outro, e eu só pensando no que é que teria acontecido pra extraviarem o menino.
-Me leva lá na sala, por favor – pedi.
Foi botar o pé no recinto e lá veio ele gritando, “Nana, Nana”. A professora, sem graça, falou:
-Mas o nome desse menino é Fred.
-É nada, é meu irmão, é Guilherme.
-Mas ele passou o dia atendendo como Fred...
-Mas é Guilherme, moça, tou dizendo que é meu irmão.
Aí ela virou e perguntou o nome dele.
-Blébi – respondeu.

sábado, maio 27, 2006

Historinha adolescente

Um dia, minha vizinha e amiga de infância sonhou com um número de telefone desconhecido: o prefixo era 361, o do nosso bairro. Sonhou que era o número de um rapaz lindo e charmoso. Mas logo ela, a criatura mais atirada que eu já conheci, não teve coragem de telefonar pra checar. Do alto dos meus 15 anos, tinindo de atrevimento e falta de juízo, liguei eu.
“Boa tarde, moça”, disse à mulher que atendeu. “É que o rapaz que mora aí me deu esse número, mas eu esqueci o nome dele”. “Ah, Marconi”, falou ela, sem a menor desconfiança. “Um momentinho que já vou chamar”. E foi. E ele atendeu. E eu, no maior desplante, depois de dez minutos de conversa – “oi, Marconi, tudo bem?” – contei a ele a história maluca inteira. Marconi tinha 17 anos e não sei se acreditou, mas claro que ficou curioso. Depois de mais uns dois telefonemas (minha amiga sempre sem querer falar com ele, morta de vergonha), marcamos de nos encontrarmos.
Não lembro onde combinamos – se na Jan-Ju, a sorveteria do bairro onde tudo acontecia; se na praia; se no shopping; se no próprio prédio. Eu fui, como intérprete do casal. Minha amiga cheia de dedos, roxa, como se fosse morrer.
Marconi tinha espinhas, era gordinho, cara de bom rapaz, e mais eu não lembro agora. Não parecia com o rapaz do sonho e ela se desinteressou dele - que não chegou a se interessar por ela, mas botou logo o olho em mim.
Este poderia ser o início de uma linda história de amor, mas Marconi, tadinho, não sabia por onde começar. Passou dias e dias me ensinando a jogar vinte-e-um, relancinho, todos os jogos do baralho. Nunca arriscou nem a pegar na minha mão. E eu, malvada que sou, aficcionada que sou por homens severgonhos (dá uma tese, longas histórias), aos poucos comecei a fugir do rapaz, de um jeito tão natural que até hoje não sei dizer como Marconi sumiu.
Fico aqui pensando, se ao invés de telefonar, a gente não devia ter jogado no bicho...