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sábado, novembro 04, 2006

Cachorradas

Estava lendo um bestseller engraçadinho chamado Marley & Eu e fiquei triste. É que eu nunca tive um cachorro que fosse 'meu'. Convivi com vários mas, na verdade, sempre acabei possuindo um pouco, por tabela, os cachorros do meu irmão Gabriel, todos machos: Pinguinho, um pequinês que corria atrás das galinhas e foi roubado da nossa casa, ainda filhote. Paçoca, um miniatura pinscher que acabou sendo 'exilado' de casa. Barnard, um beagle que morreu aos 17 anos, velho como o cão. Jink, o labradoido atual. Uma única vez, nos idos dos meus oito anos, achei uma viralatinha preta dando bobeira na rua, levei pra casa, batizei de Xuxa - e a pobre morreu em três dias, mofina e triste, porque já estava irremediavelmente cheia de vermes.
Devo admitir pra vocês que ter um cachorro é um sonho secreto que vai e volta na minha cabeça, mas sempre descarto o plano: se eu não tomo conta direito nem de mim mesma, imagine de um cachorro! Ainda assim
interajo com os bichinhos, especialmente os viralatas - que refletem bem a minha essência.


Uma vez, na época de faculdade, saí debaixo de chuva do Centro de Artes e Comunicação da UFPE. Ia andando com meu amigo Alessandro e de repente dei um grito: quase pisei numa coisa escura e molhada, que achei ser um rato. Não era: era uma cadelinha bebê, desgarrada da mãe. Pensei comigo: se ficar aqui sozinha, na chuva, vai morrer. Enrolei a bichinha na toalha que trazia na mochila (era dia de educação física) e enfrentei um Candeias-Dois Irmãos lotado com ela no colo, fazendo gréia: por favor, dá licença, preciso passar com minha filha. Chegando em casa, minha mãe quis comer meu fígado, até que esclareci que não queria ficar com a coisinha, e que no dia seguinte arrumaria um dono pra ela. Aí mamãe sossegou e até ajudou a dar leite e mantê-la quentinha. No outro dia, fui cedo pra faculdade, me plantei na frente do prédio e perguntei a cada ser vivente do CAC se não queria levá-la pra casa. Acabei descolando um interessado, ao qual passei meses inquirindo sobre o estado de Neguinha, quando o encontrava de passagem. Com isso fortaleci, perante os olhos de Alex, uma imagem de sensível e humana que não descolou mais de mim, mesmo passados tantos anos.
De outra feita, estava voltando da UFRPE - de uma farra, certamente. Era quase meia noite, eu estava sozinha no ponto de ônibus, e uma viralatinha fêmea, raceada com cachorro-salsicha ('daschund'), parou, me encarou e ficou fazendo companhia. Largada, solitária, abandonada, a bichinha me comoveu até o âmago do meu ser ligeiramente alcoolizado. Quando o ônibus passou, zupt!, cedi ao impulso e carreguei a danadinha comigo. De tão semelhante a mim, batizei-a de Igual.
Igual tinha um cheiro horroroso, mijou na sala, chorou a noite inteira, soltou pêlos pela casa, roeu o pé da mesa e eu me desesperei e acabei trancando-a no banheiro. Em dois dias, arrumei um novo dono pra ela e pude suspirar aliviada. Estava livre, afinal...
O que não quer dizer que vou desistir da minha carreira de defensora dos oprimidos e da minha nobre intenção de ter um cachorro, um dia. Mas de preferência, antes quero uma casa com um belo quintal!

segunda-feira, julho 10, 2006

Auauau


Eu voltava tarde pra casa e, toda noite, lá estava o viralata na esquina. Eu sabia que era o mesmo pelo tamanho - era bem grande - e pela peculiaridade de ter um olho castanho e outro azul. Ele me farejava, meio cismado, mas, com o tempo, ficou meu amigo: latia, me cumprimentando, de longe, e me acompanhava até a porta do prédio, no fim da rua. Um dia comentei com meu irmão Gabriel a delicadeza do cachorro, como eu achava legal ele me fazer companhia. Aí Gabi virou pra mim bem sério e perguntou: e tu nunca dá nem um real pra ele?