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quinta-feira, novembro 02, 2006

Dia de Finados


Ontem eu vi, num ponto de ônibus, uma senhora idosa de vestido estampado e tranças no cabelo carregando uma coroa de flores azuis de papel crepom fosforescente, com a inscrição saudade sem fim. Achei tão brega, e tão singelo, e tão engraçado e tão triste ao mesmo tempo, que não entendi imediatamente o que ela fazia com aquilo na mão. Até que caiu a ficha: dois de novembro.
As flores melodramáticas da senhorinha do ponto de ônibus me lembraram dos meus mortos que vão ficar sem visita, já que minha mãe materialista e minha avó extremamente prática não incutiram em mim o hábito de ir carpir minhas dores sobre as catacumbas, anualmente. E são muitas as perdas: vovô Zezé, vovô Oswaldo, vovó Nageca, Antonio Carlos, Jarmé, e minha mãe que me faz tanta falta que às vezes me sinto sem chão, sem alicerce.
Eu podia ir ao cemitério verificar se o mala-sem-alça que arranca vinte contos mensais do meu tio está efetivamente tomando conta das lápides de toda essa galera querida. Mas prefiro cultuar a memória deles de outras formas: celebrando o que deles continua existindo em mim e no mundo. E tentando enxergar, como dizia Gabriel García Márquez, que é a vida, mais que a morte, a que não tem limites.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Lembrança

Quando menina era um sofrimento, porque Papai Noel era invenção do capitalismo, o Coelhinho da Páscoa uma balela burguesa, e o Dia das Crianças, uma criação do comércio para vender brinquedos. Mamãe era linha dura: cortava meu cabelo curtinho pra não dar piolho, só me dava sandálias ortopédicas, e a minha vida inteira sonhei com uma calcinha bunda-rica, daquelas cheias de frufru de nylon, e ela só comprava umas lisas, feiosas, de algodão anti-alérgico. As mesmas calcinhas horrorosas e sapatos sem-graça que me dava no aniversário, ocasião em que proibia os amiguinhos de me levarem presentes.
Esta semana fui dar aula sobre a
indústria cultural para a minha turminha de Teoria da Comunicação. E a surpresa maior que tive, ao analisar a presença de marcas e etiquetas nas pessoas da sala, foi ver que nada em mim tinha uma razão consumista: escolho as coisas pelo que são, pelo material ou trabalho nelas contido, e não pelo nome pregado. Sorri e lembrei dela, das lições espartanas que me fizeram ser quem sou.
Não, minha mãe não chegava a ser um monstro: a qualquer dia do ano, se tivesse dinheiro e soubesse que eu queria muito um presente, ela me dava. E isso ajudou na construção do meu caráter, fazendo com que trocasse qualquer coisa por livro ou disco, e aprendesse a inventar os meus próprios brinquedos. Poucas mães conhecidas permitiriam que os filhos criassem sapos, como foi o caso do meu irmão e eu: além deles, tivemos cachorros, gatos, periquitos, galinhas, tartarugas, preás. As casa da minha infância tinham quintal, árvore, espaço pra correr, pra bulir. Uma delas tinha um mar verde e morno se descortinando à frente, terreno a ser desbravado pela criançada afoita, que não se preocupava com tarado, ataque de tubarão ou incidência de câncer de pele.
E para atenuar essa 'rigidez revolucionária', Gabriel e eu podíamos contar com nossos avós, especialmente Nageca, mãe de mamãe, que nos proporcionou a experiência da plena dádiva/permissividade. Uma vez, lembro de ter ido com ela à loja
Sloper, no meu aniversário, e sair de lá toda vaidosa, com três bonecas, uma bolsinha, perfumada e vestida da cabeça aos pés, e com um anel em cada dedinho das mãos. De outra feita, chegou no supermercado (num tempo em que os tais praticamente só vendiam gêneros alimentícios, vale frisar), deu um carrinho a cada um de nós, e falou: podem comprar o que quiserem. Essa permissão valia mais do que efetivamente levar a loja inteira; e no fim a gente levava só uns pacotes de biscoito, sorvete, chocolate - e eu, também uns sabonetes e uma colônia johnson, que é até hoje meu perfume favorito. Esses momentos perdulários faziam um bem tremendo à alma e eram o contraponto que a gente precisava pra sermos completamente felizes.
Hoje é dia das crianças e a menina que mora em mim não sente falta de presentes - esses eu quase nunca ganhava. Queria era ter cinco anos, andar pelada no quintal, ouvir Carequinha na radiola laranja, brincar de guerra de goiaba e dormir no beliche apertadinho, com medo do lobo que morava embaixo da cama e fingia que era chinelo quando alguém acendia a luz.