
Ontem eu vi, num ponto de ônibus, uma senhora idosa de vestido estampado e tranças no cabelo carregando uma coroa de flores azuis de papel crepom fosforescente, com a inscrição saudade sem fim. Achei tão brega, e tão singelo, e tão engraçado e tão triste ao mesmo tempo, que não entendi imediatamente o que ela fazia com aquilo na mão. Até que caiu a ficha: dois de novembro.
As flores melodramáticas da senhorinha do ponto de ônibus me lembraram dos meus mortos que vão ficar sem visita, já que minha mãe materialista e minha avó extremamente prática não incutiram em mim o hábito de ir carpir minhas dores sobre as catacumbas, anualmente. E são muitas as perdas: vovô Zezé, vovô Oswaldo, vovó Nageca, Antonio Carlos, Jarmé, e minha mãe que me faz tanta falta que às vezes me sinto sem chão, sem alicerce.
Eu podia ir ao cemitério verificar se o mala-sem-alça que arranca vinte contos mensais do meu tio está efetivamente tomando conta das lápides de toda essa galera querida. Mas prefiro cultuar a memória deles de outras formas: celebrando o que deles continua existindo em mim e no mundo. E tentando enxergar, como dizia Gabriel García Márquez, que é a vida, mais que a morte, a que não tem limites.
