Quando menina era um sofrimento, porque Papai Noel era invenção do capitalismo, o Coelhinho da Páscoa uma balela burguesa, e o Dia das Crianças, uma criação do comércio para vender brinquedos. Mamãe era linha dura: cortava meu cabelo curtinho pra não dar piolho, só me dava sandálias ortopédicas, e a minha vida inteira sonhei com uma calcinha bunda-rica, daquelas cheias de frufru de nylon, e ela só comprava umas lisas, feiosas, de algodão anti-alérgico. As mesmas calcinhas horrorosas e sapatos sem-graça que me dava no aniversário, ocasião em que proibia os amiguinhos de me levarem presentes.Esta semana fui dar aula sobre a indústria cultural para a minha turminha de Teoria da Comunicação. E a surpresa maior que tive, ao analisar a presença de marcas e etiquetas nas pessoas da sala, foi ver que nada em mim tinha uma razão consumista: escolho as coisas pelo que são, pelo material ou trabalho nelas contido, e não pelo nome pregado. Sorri e lembrei dela, das lições espartanas que me fizeram ser quem sou.
Não, minha mãe não chegava a ser um monstro: a qualquer dia do ano, se tivesse dinheiro e soubesse que eu queria muito um presente, ela me dava. E isso ajudou na construção do meu caráter, fazendo com que trocasse qualquer coisa por livro ou disco, e aprendesse a inventar os meus próprios brinquedos. Poucas mães conhecidas permitiriam que os filhos criassem sapos, como foi o caso do meu irmão e eu: além deles, tivemos cachorros, gatos, periquitos, galinhas, tartarugas, preás. As casa da minha infância tinham quintal, árvore, espaço pra correr, pra bulir. Uma delas tinha um mar verde e morno se descortinando à frente, terreno a ser desbravado pela criançada afoita, que não se preocupava com tarado, ataque de tubarão ou incidência de câncer de pele.
E para atenuar essa 'rigidez revolucionária', Gabriel e eu podíamos contar com nossos avós, especialmente Nageca, mãe de mamãe, que nos proporcionou a experiência da plena dádiva/permissividade. Uma vez, lembro de ter ido com ela à loja Sloper, no meu aniversário, e sair de lá toda vaidosa, com três bonecas, uma bolsinha, perfumada e vestida da cabeça aos pés, e com um anel em cada dedinho das mãos. De outra feita, chegou no supermercado (num tempo em que os tais praticamente só vendiam gêneros alimentícios, vale frisar), deu um carrinho a cada um de nós, e falou: podem comprar o que quiserem. Essa permissão valia mais do que efetivamente levar a loja inteira; e no fim a gente levava só uns pacotes de biscoito, sorvete, chocolate - e eu, também uns sabonetes e uma colônia johnson, que é até hoje meu perfume favorito. Esses momentos perdulários faziam um bem tremendo à alma e eram o contraponto que a gente precisava pra sermos completamente felizes.
Hoje é dia das crianças e a menina que mora em mim não sente falta de presentes - esses eu quase nunca ganhava. Queria era ter cinco anos, andar pelada no quintal, ouvir Carequinha na radiola laranja, brincar de guerra de goiaba e dormir no beliche apertadinho, com medo do lobo que morava embaixo da cama e fingia que era chinelo quando alguém acendia a luz.
9 comentários:
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a falta de consumo na minha casa não era por ideologia, era falta de grana, mesmo. dia da criança a gente via por cima do muro, no pátio dos vizinhos, mas a inveja pelos presentes das outras crinaças durava pouco, só o tempo de inventar uma brincadeira e sair correndo.
putz, ganhei de vc: não tinha sapo, mas tive gato, cachorro, coelho, porquinho da índia, galinha, pato, hamster, papagaio, caturrita, uma inifinidade de passarinhos, tartaruga e cágado. e deve ter alguma espécie que esqueci.
mas ainda quero presente.
adoro presente.
dar e receber.
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Xôn, hamster eu tive também, e tartaruga aquática, e até uma alga esquisita que a gente criava dentro do chá (!).
;.)
Beijos, meninos! Feliz dia das crianças interiores...
Bom. Odeio dizer isso (nem sou TÃO antiga!), mas quando euzinha era criança não haviam marcas famosas e nem tantas datas, assim! E não havia tanto consumismo, nem as coisas eram descartáveis! Poucos brinquedos industrializados e muitos panos, vidros, caixinhas, latinhas... Quintal enorme e liberdade eram puro incentivo à criatividade e á imaginação!
Procurei repetir isto com meus filhos e, confesso, passei muitas tardes sentada no chão, brincando com eles! Recortar, pintar, colar, inventar... Mexer na terra, na água, se sujar... Bom demais!
Ah! Nunca tive animais de estimação, mas, como morava no campo, podia "conviver" com eles, faziam parte da minha rotina!
Acho que tivemos muita sorte!
Beijo, Ana! ;.)
Mari, cronista maravilhosa! Como gostei de tudo isso que li de ti.
Beijão
Me encabula não, menino. Logo tu, me dizer isso... Oxe!
;.)
Cheiro, querido!
Ô mulé, assim tu me mata de inveja. Como é difícil escrever bem assim! E fazer cócegas com tanta competência e doçura no peito da gente.
Beijão. Eu me escondo às vezes mas não desapareço não, visse?
Mariana,
Por um imenso amor por Recife e Pernambuco, cheguei até o "Sítio de Maricota".
E a crônica que você escreveu, em 23/09/2005, dia do aniversário de sua mãe ("... ir a um restaurante árabe..."; "... ouvir Nara Leão ..."; "... usar lavanda Yardley ...")comoveu-me profundamente.
Esta crônica, "Lembrança", segue a mesma linha.
É o melhor de Mariana Mesquita.
Grande abraço,
Harif Miguel.
Bem vindo ao sítio, Harif. Volte mais, viu? Obrigada pelos elogios. Beijão!
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