
Depois do post em que apareci com orelhas de gnomo, fiquei lembrando das fantasias que já vesti na vida. Nem foram muitas, minha mãe materialista e prática também não levava o carnaval a sério, e o resultado é que devo ter tido umas três roupinhas de festa na minha infância: índia, baiana e havaiana. E nem foto ela tirou, pra remédio!
Mas depois que cresci, e comecei a usar minhas próprias pernas e vontade pra rumar pra Olinda, eu mesma fui providenciando as fantasias. Um ano, aprendi a fazer máscaras de gesso e jornal, e moldei a cara da família inteira. Meu maior prazer sempre foi minhas próprias roupas, e em 2004 e 2005 juntei-me com Eva nessa missão. A casa dela virava nosso quartel-general, comandado pela mãe, Joanita, e suas mãos mágicas.
Em 2004 saí de borboleta amarela, envolvida de tule e lantejoulas. Ser borboleta sempre foi minha nem tão secreta vontade. O pai de Eva, João, tirou uma foto minha no meio de um canteiro de onze-horas que tem lá no quintal deles. E rumei feliz pra gandaia. Tá certo, não fiquei a mais delicada das criaturas, pela minha grandeza intríseca e falta de jeito explícito. Pra completar, misturei vodca e axé de fala, e deu problema. Entrei numa roda de pogo, num show de rock de uma banda de Peixinhos, lá na praça da Preguiça. Perdi uma das antenas no meio da dança, e seis meses depois fui apresentada ao vocalista da banda que fazia o show e ele lembrou imediatamente de mim (!). No fim de tudo, eu quis voar. E terminei o carnaval de pé torcido, botando gelo e rezando pra dor passar, na companhia de Evandro.
No ano seguinte, saí de Chapeuzinho Vermelho, fantasia postumamente registrada por meu irmão Gabriel num ensaio com o "lobo mau" Jink. Foi aí que definitivamente incorporei a tese que não basta inventar a fantasia (Eva adora coisas malucas, 'Origami Girl', 'Íris, a mensageira dos deuses', se inspira em carta de tarô e por aí vai). O bom mesmo é criar algo que os outros entendam e possam interagir.
Enchi minha cestinha de bombom, me perdi dos amigos e passei um dia antológico, sozinha, brincando em Olinda. Passei na frente de uma creche, e a criançada de olhos arregalados gritava por mim, explicando onde era a casa da vovó. Cantei a musiquinha da história aos pulos, saltando pelas ladeiras, de braços dados com um casal de gays alagoanos que viraram meus amigos de infância. Pedi informação em todos os pontos de apoio ao turista e delegacias móveis, e nenhum policial deixou de responder à pergunta "o lobo mau passou por aqui?" (as respostas foram antológicas). Falando em lobo, arrumei vários candidatos (e até briga com a mulher de um deles), mas atravessei o dia incólume porque sou, no fundo, uma menina boazinha - e tinha namorado. Enfim, ri muito e exercitei ao máximo meu lado lúdico - tudo o que a gente mais precisa e merece, nessa vida.
Enchi minha cestinha de bombom, me perdi dos amigos e passei um dia antológico, sozinha, brincando em Olinda. Passei na frente de uma creche, e a criançada de olhos arregalados gritava por mim, explicando onde era a casa da vovó. Cantei a musiquinha da história aos pulos, saltando pelas ladeiras, de braços dados com um casal de gays alagoanos que viraram meus amigos de infância. Pedi informação em todos os pontos de apoio ao turista e delegacias móveis, e nenhum policial deixou de responder à pergunta "o lobo mau passou por aqui?" (as respostas foram antológicas). Falando em lobo, arrumei vários candidatos (e até briga com a mulher de um deles), mas atravessei o dia incólume porque sou, no fundo, uma menina boazinha - e tinha namorado. Enfim, ri muito e exercitei ao máximo meu lado lúdico - tudo o que a gente mais precisa e merece, nessa vida.
23 comentários:
Ahahahahahah!
"Dou por visto"!!! Eu lembro de você e Eva se aprontando na época da "Íris", mas não sabia nem do destino da borboleta nem das aventuras de chapeuzinho. Mari, se Almodovar fosse recifense, os filmes dele com certeza seriam sobre histórias como as tuas! E só sabe que essas coisas todas rolam mesmo quem já foi no carnaval de Olinda. Quem não conhece, fica pasmo e só crê porque és tu quem está contando.
Novamente parafraseando minha avó, "Tu não existes"!
Beijo!!!!!
Aliás, não era "Íris", era "Ísis", sorry Evinha!
essas tuas histórias são massa!!! E como disse, Lipe, só acredita que essas "coisas" acontecem quem já participou do carnaval de Olinda.
A criatividade do povo vem à tona e a gente nem imagina o que vai encontrar pelas ladeiras. Adoooooooro carnaval!!!
beijo
A melhor cantada que eu levei foi de um bombeiro que tava de plantão. Eu já tinha parado em duas delegacias móveis, onde os policiais me disseram que tinham levado o lobo mau pro Aníbal [presídio local] e 'quebrado ele de pau'. O bombeiro, não. Ele riu, encarou fundo e lascou essa: 'passa depois das 22h, que ele me jurou que espera vc aqui na frente da viatura'. Auuuuu. Mas eu não tive coragem...
Eta, Lipe. Era Ísis mesmo. Pra vc ver, fantasia conceitual nem os próprios amigos lembram o que danado é...
Beijo!
Beijo, Cida! Bom ter vc aqui...
tá linkado, querida!
ah, vi que gostou da frase da Mercedes... bárbara, né?
:O)
MA-RA-VI-LHO-SO!!
Que coisa incrível esta disposição pra alegria!!
Tem fórmula? Receita? Senha?
Porque se tem, patenteia! Tu vais ficar milionário e mundo muito mais feliz!
Êbaaaa!!!!
Também querooooo!
Ops!
Milionária!!
Beijooosss!
Renata: roubei a frase sim, no maior descaramento! Achei linda. Beijo!!!
***
Ana: sei lá. Acho que é falta de juizo mesmo. E até hoje, financeiramente, não me acrescentou nada. Mas me deixou rica de outras coisas...
Cheiro.
Oi, Mari, não falei com esse sentido de roubar não. Imagina, a gente expõe as coisas é pra isso mesmo, pras pessoas curtirem e ir passando adiante... né não?
A frase não é de uma música, é de um poema feito pela Mercedes em homenagem à Violeta Parra, uma compositora chilena maravilhosa. Tenho o poema em mp3, se vc quiser posso te passar depois. beijo, querida.
Mas eu não falei nesse sentido também não, menina! Manda sim, vou gostar de ouvir. Beijo!
*
e de que vc vai fantasida ano que vem?
de e-mail?
ou spam?
:p
*
?????
Não entendi...
*
ô, doidinha cheirosa: vc não disse qu sua amiga faz fantasias criativas?
então sugeri que vc vá de e-mail - pra quem tem mil blogs e dá aula sobre isso seria perfeito.
ou que fosse de spam - já que vc adora um trololó com a mundiça.
vou desenhar na próxima vez, tá?
:P
beijo.
*
Aaaah tá.
Mas essa então é uma sugestão pra Eva.
Porque as minhas fantasias são sempre óbvias, porque gosto de ser facilmente reconhecida.
Acho que vou de pudim: é só passar caramelo e botar uma ameixa no umbigo.
Ops!
;.)
Cheiro, seu chato.
PS- Baseado EM QUE vc afirma que eu adoro trololó com a mundiça, hein???
Minha genética pernambucana esqueceu de codificar o amor pelo carnaval.... mas como sempre me diverti demais lendo tuas coisas. E acho que as respostas antológicas à tua pergunta sobre o lobo mau rendem outro post impagável. Pode ser?
Bjos sertanejos.
Nunca conheci um carnaval assim... carnaval de fantasias, alegrias e sensualidade... se tivesse conhecido com certeza teria gostado. Carnaval que conheci sempre foi bebedeira e putaria e como acho que estas duas coisas não funcionam muito bem combinadas, sempre saí fora.
Fiquei impressionado com seu relato! Primeiro porque certas frases soam quase que alienígenas para mim, como "Pra completar, misturei vodca e axé de fala, e deu problema. Entrei numa roda de pogo, num show de rock de uma banda de Peixinhos, lá na praça da Preguiça." Minha primeira reação, foi: ahn?!?!?! hehehe
Em segundo, sua energia, vigor, alegria e desprendimento. Preciso passar mais por aqui, acho que tenho muito a aprender com você!
Um beijo,
PS. Obrigado pelo convite!!
Leo,
Convite não falta; pergunte a Felipe se é bom ou não é.
Tem gente que confunde e transforma Olinda em apenas putaria e bebedeira(não é preconceito, isso é principalmente os que vêm de fora e não têm o hábito de brincar). Mas a nossa tradição é principalmente fazer as próprias brincadeiras, experimentar novos papéis e rir muito.
Eu sou meio de lua, às vezes fico em clima de carnaval mesmo quando o mês é agosto, sabe como é? Adoro brincar...
Quanto à energia, eu sou ciclotímica mas sempre intensa: tudo em que me envolvo é pra valer. E de vez em quando bate um negócio em mim, que faz com que precise sair, ver gente, dançar. Quase um surto. Disso, costumo sair fisicamente exausta, mas com a mente limpa, completamente desestressada. É minha melhor terapia.
Um cheiro e apareça mesmo!
Mari
Tárcio, tou preparando seu post-encomenda. Aguarde... hehehe.
Beijo!
Olha só! Vc é mesmo a minha alma gêmea, e não é só nos joelhos ferrados! Meus pais são materialista e práticos, mas, inferno, eu nasci no ABC paulista, perdi essa parte da folia.
Vou te linkar lá, moça. Vc é imperdível.
Beijos!
Ô dona Giovana, que coisa mais chique. Também te linkei, visse? Paixão à primeira lida.
Beijo!
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