
Ele tinha um riso largo, bonito. A barba cerrada, olhinhos pretos rasgados. Era alto e tocava violão. Foi o primeiro cara que vi cantar blues na vida. Eu tinha 16 anos e tinha acabado de entrar na faculdade e era uma completa menina pra muitas coisas. Fazia Engenharia, enquanto eu estudava Jornalismo. Largou o futuro promissor de tecnólogo, prestou outro vestibular e foi fazer Letras. Estudava alemão, filosofava. Escrevia poemas malucos e desenhava coisinhas engraçadas. Tinha uma conversa mágica e fluida sobre temas que eu nem imaginava. Era gordinho, tinha um abraço gostoso. E a gente se olhava muito e sempre, dois tímidos que nunca ousavam se aproximar. Também, a vida era complicada: um só estava livre quando o outro estava comprometido. Mas eu tinha certeza que a gente ia namorar um dia. Eu conseguia enxergar três filhinhos e um cachorro no olhar doce que me lançava. Por causa dele, aprendi a ser afoita. A não esperar indefinidamente pela chance que a vida trará. Sempre lembro dele com melancolia, com saudade do que poderia ter sido: Pedrão morreu num acidente de carro, há dez anos. Muito tempo depois, uma amiga comum confirmou que ele era apaixonado por mim.
6 comentários:
Essa mexeu fundo, Mariana.
As histórias que a gente vive as vezes são mais surpreendentes que aquelas que a gente vê na ficção.
Bjão
Beijo, querido.
Eu queria ter pelo menos uma foto desse menino, mas nem isso... Estranho, né? Mas guardo a lembrança dele com um carinho enorme.
Perfeito para um post "VIDAS QUE VALEM UM CONTO" lá no meu blog. Só que este não é inventado, é vida contada com arte.
Cheiro do cumpadre do sertão.
Sinta-se à vontade, se quiser postar. Seria uma honra enorme! Cheiro.
Ai, guria, que dor.
E que bonito isso de lembrar do moço
...
É bonito não, menina. É só saudade.
Beijo.
Postar um comentário