
Ontem assisti a Tempero da Vida. E ele me evocou uma série de lembranças queridas, acerca de comida e de família. Lembrei de minha mãe, que depois de doente ficou mais e mais exigente, porque a quimioterapia a deixava enjoada – e por isso saía à busca não de comidas ‘saudáveis’, mas que lhe agradassem o paladar e a alma: assistia a programas culinários no canal People + Arts, aprendendo a preparar javali ao molho de blueberries e outras receitas cujos ingredientes jamais encontraria no Recife, e ao mesmo tempo deu um escândalo no hospital onde foi internada, fez greve de fome por um dia inteiro, e acabou obrigando a nutricionista a lhe servir a mesma comida destinada ao pessoal da limpeza – feijão, jerimum, farinha e ovo frito. Comida pra mim é muito isso, evocação. Quando meu avô morreu, mamãe chorou no supermercado, abraçada a uma lata de queijo do reino Borboleta – e eu sei perfeitamente o que ela sentiu, porque também lembro dela cada vez que vejo pudim de clara e polenta. Baba de moça é vovó Nagicina, brigadeiro é meu irmão Gabriel, sopa de feijão com macarrãozinho é vovô Zezé, bolo de rolo é vovó Sylvia, pudim é Julia, jambo e pitomba é infância. Preparar a comida é outra coisa que diz muito da gente. Mamãe mal sabia cozinhar, mas sua cuca de banana com as rodelinhas em cima e seus biscoitos de raspa de limão amassados com o garfo são iguarias inesquecíveis. Também não era sempre, mas o ritual de ver minha mãe fazer filhoses no fim de semana me enternecia e infelizmente não vou mais poder repetir a cena, até porque ela não deixou a receita. Eu não sei seguir receita. Tenho vários livros de receita, adoro sites culinários, mas não sei seguir receita: pra mim aquilo é só uma base pra ser desconstruída, o ponto de partida pra eu inventar variações. O resultado é que as coisas que faço ganham meu jeito, meu gosto. E eu sou meio iconoclasta. Ontem vendo o filme lembrei disso, ao ver uma personagem colocar canela na almôndega que preparava. Meus doces levam sal, meus salgados levam açúcar. Meu prato mais famoso, o que mais tem fãs e o que sou obrigada a preparar para Samuca, Dadá, Rilton, Queops, Flavão e quem mais tenha comido dele, é uma rabada com molho de vinho e chocolate. Descrever não adianta, como não adianta franzir o nariz sem ter comido. Cozinhar pra mim é passar dois dias pensando em cada ingrediente que vou colocar na comida, é sair para comprar coisinhas no mercado e enfiar a mão à la Amélie Poulain nas sacas de grãos, é preparar seis meses antes um azeite especial com pimenta, louro e alho, é sentir o cheiro e a cor das especiarias distribuídas nos potinhos, é comer junto com os amigos, partilhando a alegria. Acho que por isso ando tão triste, porque minha casa não tem fogão e não tem mesa nem espaço pra se fazer esse tipo de farra. Comida na minha vida virou um negócio monótono, pão integral com queijo toda manhã, almoço no mesmo self-service, e promoção de coxinha com coca-cola da chinesa da esquina que como toda noite antes de chegar em casa, junto com um maldito churro. Depois eu não sei porque ando triste, depois eu não sei porque estou com anemia e dez quilos mais gorda, depois eu não sei. Ou sei?
4 comentários:
caralho,
adoro fazer almoço com os amigos,
a casa do xarlie era ponto de encontro, mas ele mudou prum apê menor e tá meio difícil.
tb associo muito comida aos meus parentes e pessoas queridas. Meu falecido avô apesar de ser uma pessoa de paladar muito refinado ficou associado para mim ao presunto com mostarda forte que ele comia de vez em quando.
Presunto com mostarda não é refinado? ;.)
Mamãe gostava de ovo frito com uva passa!
Beijo
Gostei do texto Mariana! :) Hoje eu cozinhei pro meu namorado, e inventei com o que tinha por aqui. Fiz um marcarão parafuso como manteiga, azeita, alecrim e alcaparras. Bernardo disse que ficou ótimo! :P Quando tava cozinhando, conversamos sobre comidinhas, me lembrei da papa que minha bisavó fazia!
Que delicia sua visita, dona Flora... Beijo!
Postar um comentário