quinta-feira, dezembro 29, 2005

Acesso de nostalgia

Aprendi a ler sozinha, por volta dos cinco anos. Minha mãe desconfiou de algumas perguntas sem propósito que eu fazia, e tentou me fazer ler, mas eu não quis. Aí ela me ofereceu dar uma boneca Emília, recém-lançada e objeto dos meus sonhos, se eu lesse cinco ou seis coisas tipo bola, menina, sapo, tatu. Li na hora, é claro!, ela cumpriu a promessa e a Emília me acompanha até hoje como um talismã, sentadinha na minha estante de livros.


Foi o início de uma paixão fulminante. Eu era uma menina esquisita, como podem imaginar todos os meus afilhados e sobrinhos reais ou postiços, que simplesmente odeiam quando eu chego com um, de presente (a seção infantil das livrarias ainda me atrai de forma inexplicável). Pra mim, livro ou papel e tinta eram algo maravilhoso. Eu enchia tanto a paciência da minha mãe atrás de livros, que um dia ela resolveu ‘economizar’ e comprar um lote numa editora. Ela me levou pra escolher, e voltamos com mais de vinte livrinhos pra casa. Lá chegando, não sei porque cargas d’água ela resolveu ‘regrar’ o acesso, me dando de um por um, ‘só quando eu tivesse acabado de ler’. Sorrateira, eu passei uns três dias vasculhando a casa, nos lugares mais insuspeitados. Até que achei o esconderijo. E quando minha mãe chegou, me encontrou louca de felicidade, fazendo bamburim com os livros, e teve pena de interromper minha alegria. O prazer de ter tudo aquilo pra ler, de poder tocar, cheirar, folhear aqueles livros todos, eu não esqueci até hoje e me vem à mente quando eu entro numa livraria como a Fnac, a Cultura ou a Travessa.

Onde estão os livros da minha infância, meu Deus? Não sei que fim levaram, mamãe saía dando sem minha permissão. Mas acho que eles somem sempre, acontece com todo mundo. Como disse uma amiga, é um ‘grande mistério da minha humanidade, de resto só ficou aquilo que sou’.


* Pequeno inventário da minha saudade:

Os desastres de Sofia - A Arca de Noé - Ou Isto ou Aquilo - Marcelo, Marmelo, Martelo - A vida íntima de Laura - A mulher que matou os peixes - A Bolsa Amarela - Os colegas - A fada que tinha idéias - Lúcia Já Vou Indo - Flicts - Reinações de Narizinho - Clarita da pá virada - O menino maluquinho - O menino do dedo verde - Manu, a menina que sabia ouvir - A Curiosidade Premiada - A Terra dos Meninos Pelados - O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá - Chapeuzinho Amarelo - As anedotinhas do Pasquim - As aventuras de Xisto - O Pequeno Príncipe - A árvore generosa - Oliver Twist - Poliana - O Reino Perdido do Beleléu - Lili do Rio Roncador - Memórias de um burro - O caso da borboleta Atíria - A ilha perdida - Coração de Onça - Uma menina chamada Rita.

3 comentários:

Anônimo disse...

oootimo post.
quanto tempo nao via essa palavra bamburim... Sabe que essa tua lista me deixou de agua na boca?

Mariana Mesquita disse...

Sabia que você sabia o que é bamburim, escrevi pra você!
;.)
Beijo!

Mariana Mesquita disse...

Link legal sobre livros infantis:

http://www.clicfilhos.com.br/site/display_materia.jsp?titulo=Livros+que+n%E3o+envelhecem