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quarta-feira, agosto 08, 2007

Mais uma de ônibus


Estou bem distraída, voltando com Leo do obstetra, quando ouço a pérola: "Ah, eu não pude sair porque precisei ajudar minha mãe. Ela fez uma vasectomia ontem". Olhei pra trás no mesmo instante, contendo o riso ao me deparar com um grupinho de três adolescentes de uns 11, 12 anos. O filho do fenômeno ainda completou: "Coitada, ela passou o dia todo dormindo. Vocês sabem que vasectomia deixa a gente mole, não é?"

sábado, novembro 11, 2006

Mercado persa

Um dia arrumo dinheiro e compro um carrinho. Mas enquanto isso, vou me divertindo nos ônibus.
Acabo de voltar de Camaragibe (nos sábados de manhã tenho dentista, ninguém merece). É uma cidade da região metropolitana, a caminho dos municípios da Mata Sul onde tem maracatu, cavalo marinho, coco. É também uma espécie de 'portal de integração', você paga só uma passagem do menor valor (R$ 1,60) e sai baldeando pra outros ônibus ou pro metrô. Ir pra Camaragibe dia de hoje é aventura, o buzu tá sempre entupido, a partir do Terminal da Macaxeira (ponto de troca de ônibus). Mas tem cada figura, que vou te contar!
Tem dias em que vem um pastor evangélico, pregar a Bíblia e berrar hinos. No outro, um vendedor de sabonete de aroeira e banha de peixe elétrico. Minha amiga
Isaar uma vez pegou uma briga, porque os dois se encontraram no mesmo ônibus, e foi o embate da faca guinzo com a meia vivarina: apesar do vendedor ter entrado antes, o pregador se achou no direito de ocupar o espaço, como bom fariseu proprietário da palavra divina - inclusive, destratando o rapaz. Ela tomou as dores do injustiçado, e foi um pega pra capar.
Mas o que eu gosto mais é quando entram os cantadores.
Aqui em Recife sempre tem gente cantando nos ônibus - a começar por mim, como vocês devem lembrar. Alguns fazem disso meio de vida. Tem umas figuras lendárias, como um cara que "tocava saxofone" numa palha de coqueiro (juro, o som era igualzinho e ele se achava o próprio Kenny G) e foi parar em Jô Soares. E tem sempre os meninos que sobem, desfiando a ladainha "eu podia estar roubando carteira de mãe de família", mas antes dão sempre a palhinha invariavelmente desafinada. TÃO desafinada, que um dia um amigo interrompeu o garoto na primeira frase e falou: dou dez reais pra tu calar a boca. O moleque titubeou, mas o outro amigo mala-sem-alça que estava conosco começou a dar corda, você é artista ou não é?, e o resultado é que o cantor caprichou nos berros e ficou quase todo mundo insatisfeito - principalmente o amigo que tem ouvidos sensíveis e o menino-cantor, que ao passar a sacolinha não arrecadou nem cinco mangos - mas eu ri de quase chorar.
Pois hoje indo para Camaragibe, subiram dois emboladores, daquelas duplas tipo
Caju e Castanha. A gente é sempre meio obrigada a dar dinheiro a eles, porque senão tiram onda pesada. Tenho quase certeza de que um desses dois de hoje lembrou de mim lá do interior, por causa das palestras que andei dando: fez um olhar de reconhecimento, lascou uma quadra me chamando de 'professora' e 'doutora' e dizendo que eu gosto da cultura popular e tenho "mais de duas faculdades". Morri em cinco pilas, mas feliz, ele mereceu mais que os dez centavos do troco que a galera costuma oferecer. E aproveitei pra rir das presepadas que ele aprontou com os demais passageiros: disse que vai namorar com o cobrador, "no dia em que virar viado". Disse que precisa do dinheiro pra ajudar a avó, que "tá buchuda". Cantou a menininha do meu lado, dizendo que parece com Xuxa. Chamou uma dona de pirangueira e ameaçou, dizendo que se não ajudasse, o marido ia trair ela com a vizinha. Quando viu que não tinha jeito, lascou essa: "A mulher que não der nada/ vai levar quatro topada / quando do ônibus descer".

domingo, setembro 17, 2006

Ascendente em Gêmeos e Lua em Aquário...

Vendi meu carrinho uno-bala-prateado no começo de 2005, e comi o bichinho inteirinho durante os primeiros seis meses de Rio. Depois nunca mais tive dinheiro pra comprar outro automóvel e retomei minha vida de lisa, usuária de ônibus. Mas juro, às vezes até gosto de andar de coletivo. Coleciono histórias de presepadas...
Tem uma coisa que baixa em mim, que me dá vontade de me comunicar quando eu entro nos buzões, saber da vida alheia, estabelecer contato. Sério. Na época de faculdade, tinha meus amigos cobradores e motoristas, alguns até que não queriam me deixar pagar passagem e por causa disso, me faziam passar a maior vergonha. Outra mania que tenho é cantar no ônibus, e essa, quando eu namorava com um tocador amador de flauta doce, me fazia figurinha conhecida: bastava a gente sentar pra começar a desfiar o repertório. Não sei como nunca tivemos a idéia de pedir uns trocados aos passageiros.
Pior é que faço isso até hoje, sem pensar no que estou fazendo. Semana passada, voltando de Olinda de madrugada, peguei um ônibus lotado de adolescentes do sexo masculino, voltando de um show do Nação Zumbi. Estava sozinha, mas prontamente me juntei a eles, para gáudio da cobradora, e vim batucando e cantando até em casa – na parada, foi uma gritaria: eles queriam que eu os acompanhasse até o terminal no Sítio dos Pintos, onde a farra certamente ia continuar.
Ontem, voltando também de Olinda (ah, a cidade me inspira), junto com minha amiga Guida, lembrei de uma noite em que vinha com ela e mais dois amigos, cantando todos os jingles comerciais que podíamos recordar (tenho uma ótima memória auditiva, e amo as trilhas das Casas José Araújo, da Cremogema, da Varig, da Casa Lux Ótica e do Motel Jardim). Rimos um bocado. Aí lembramos do show de Flávio Venturini que rolou ontem, mas cuja entrada cara foi proibitiva para nós. Pronto, bastou. Começamos a desfiar o repertório do Clube da Esquina, até que uma figura meio estranha, uma mulher imponente e obesa, vestida a rigor com paetês no vestido e plumas no cabelo, virou para nós e começou a declamar as letras das músicas. Parecia aqueles programas de rádio, com tradução simultânea. Todo o ônibus virou para olhar e nós, impávidas, continuamos com o coro até que Cristina – esse era o nome dela – revelou-se uma cantora afinadíssima, com voz rouca de contralto, uma verdadeira Virgínia Rodrigues dos subúrbios recifenses. De arrepiar os cabelos, pessoal. Ela cantou umas quatro músicas, desceu e ficamos com pena de não ter pedido o telefone para marcar uma farra posterior.
Na baldeação para o outro ônibus, subiu um cara com roupa de capoeirista e berimbau na mão. Eu, que não tinha bebido uma gota de álcool mas já tava animadinha com a idéia de me socializar, virei pra ele e perguntei se ele não tocaria um pouco pra gente. “O show é oitenta reais”, falou o menino, e a gente chegou à conclusão de que ele tava a fim de grana pra ir assistir Flávio Venturini, ora bolas. Mas não desisti, olhei pra frente e comecei a cantar sozinha: “eu já vivo enjoado de viver aqui na Terra, oh mamãe eu vou pra lua, já avisei minha mulher, ela então me respondeu, nós vamos se Deus quiser, vam' morar numa casinha toda feita de sapé”... O cara deu um pulo, “onde você aprendeu isso?” Sem saber, cantei uma toada relativamente rara de capoeira, trazida para Pernambuco pelo grupo dele e gravada numa fita, há mais de dez anos, por minha amiga Bernadete – música que eu ouvi, aprendi e não esqueci, pois Mariana também é cultura, minha gente. Dete fazia parte da mesma escola do rapaz. Ele me interrogou mais de uma vez se nunca fiz capoeira (coitado, nem registrou minha excelente forma física), animou-se, montou o berimbau, puxou um corinho e viemos cantando feito três malucos. “Não esqueçam, meu nome é Nei, a gente vai se encontrar de novo”, prometeu, quando desceu no mercado de Casa Amarela.
É por essas e outras que, em boa parte das vezes em que eu subo num ônibus aqui das linhas que servem à minha casa, o motorista me dá boa noite e sorri.
**NOTA: o título do post se justifica pela minha capacidade esquizofrênica de ser múltipla. Acreditam que continuo de banzo? E que consigo ser triste quando estou alegre, e rir no meio da maior agonia?

quinta-feira, agosto 31, 2006

Indecente


A mulher falou bem alto no meio do ônibus: "Ah , a gente não precisa nem comer, não precisa nem tocar, basta olhar pra saber que é gostoso". Eu e mais uns cinco não resistimos e olhamos pra trás, as mentes pérfidas a mil. Mas ela tava tirando uma cocada de dentro do isopor de uma velhinha.

segunda-feira, julho 31, 2006

No ônibus

Eu fui no blogue da minha fiada Dione e li um post que me relembrou um episódio memorável, entre os vários vexames que já protagonizei num ônibus...
Costumo ser mais ou menos calma, e respeitar todo tipo de crença. Mas tenho horror de crente pentecostal, justamente porque eles não respeitam as crenças dos outros. Isso posto, corta pra cena em questão: num domingo à tarde, lá estava eu indo como de praxe pra Olinda, quando subiu a mulher no ônibus. Devia ter seus sessenta anos, cabelo preso num coque, Bíblia meio ensebada debaixo do braço, provavelmente indo pro culto. Dois minutos depois começou a cantar, numa voz fininha que parecia uma muriçoca, os hinos lá da igreja dela. Um, dois, dez. Até que uma hora eu não aguentei e comecei a cantar alto, lá do fundo do ônibus: "elo ya, elo ya ô, elo ya, obá xirê, obá xirê, obá, elo ya ô"...
Cantei pra Xangô, pra Oxum, pra Iansã, pra tudo que é santo cuja saudação aprendi no afoxé, que eu não sou nada na vida, sou uma casca agnóstica que não consegue acreditar em nada, mas odeia os sepulcros caiados, os fariseus que se acham melhores que os outros.
A dona arregalou os olhos e tentou cantar mais alto, mas Deus quis que aquele ônibus estivesse justamente indo pra Olinda. Logo um rastafari começou a batucar mais adiante, uma doidinha inventou de rir e fazer coro, e de repente o ônibus parecia um terreiro festivo de candomblé. Ela desceu meio murcha, dois pontos depois. E eu juro que não me arrependi até hoje.