domingo, março 12, 2006

Relembrança

Tou com quatro turmas e três disciplinas pra ensinar, e às vezes me perco no meio disso. É muita gente e eu me agonio de não saber com quem/pra quem estou falando (uma das turmas tem quase 80 pessoas!). Odeio essa impessoalidade!, como fico danada quando estou lá, falando, e a galera fica conversando, ou tentando enrolar... Às vezes a paciência vai pro dedão do pé e a vontade que tenho é dizer, "minha gente, quem não tiver a fim de aula que pegue o beco"... Mas aí, eu lembro de mim mesma quando estudante, e vejo que eu era muito pior.
Não, eu não era relapsa. Quando encontrava uma matéria que me interessasse ou um professor que me estimulasse, era a mais atenta e estudiosa das criaturas. O problema é que entrei na universidade com 16 anos e quase nenhum juízo, e um enorme desejo de me sociabilizar não só com o povo do meu curso, mas com a UFPE inteira - e isso às vezes chocava com as aulas em si...
Levei pau em Sociologia porque preferia ficar ouvindo Siba tocar violão embaixo do prédio do CAC (quem não preferiria?).
Dormia nas aulas de Reportagem, quando o professor passava uns vídeos chatíssimos lá na frente da sala.
Fazia enquetes pornográficas paralelas na aula de Entrevista.
Botava apelidos de desenho animado nos professores: Homer Simpson, Tutubarão, Rosinha.
Descobri um velho que plantava e vendia frutas dentro do campus, e levava uma saca de banana e pitomba pra 'almoçar' (e pra fazer guerra com as cascas depois, é claro).
Mas o pior foi na aula de um professor que até hoje é meu amigo e que, pra mal dos meus pecados, costumo encontrar sempre que vou a algum congresso de pesquisa em comunicação.
Não vou dar nome aos bois: o que importa, nessa história que vou contar, é que era janeiro quase fevereiro, um calor desgraçado, e a nossa turma do terceiro período vinha tendo aula por culpa de mais uma das greves das universidades federais.
Era de tarde, e além da quentura, ou por causa dela mesma, a gente queria ir embora pro Bar do Bigode, boteco dos mais fuleiros que ficava logo na saída do campus (eu não gostava de cerveja e passei a odiar por causa do Bigode, que só servia a dita cuja quente, e com salgadinho kinito's como única opção de tira-gosto. Mas é que a turma do sétimo período - onde meu paquera e o de minha melhor amiga estudavam - largava mais cedo às terças, e por isso eu e ela combinamos que toda terça era "sábado").
Numa terça específica, o calor matando, as cigarras do lado de fora da sala de redação começaram a fazer uma algazarra tremenda e o professor resolveu dispensar a turma. Na aula seguinte, tive a brilhante idéia de "ajudar" a bicharada: si-si-si-si-si-si-si... "Elas tão danadas hoje, hein?", disse o professor que falava baixinho e se resignou a encerrar a aula mais uma vez. E mais outra. Acho que foram umas três aulas abreviadas, até o dia em que elas pararam e eu continuei. Fiquei azul. O mestre me lançou um olhar de quem estava entendendo tudo, e até hoje, quase quinze anos depois, não pode me encontrar sem abrir um sorriso enorme.
Porque você pediu uma canção para cantar
Como a cigarra arrebenta de tanta luz
E enche de som o ar
Porque a formiga é a melhor amiga da cigarra
Raízes da mesma fábula que ela arranha
Tece e espalha no ar
Porque ainda é inverno em nosso coração
Essa canção é para cantar
Como a cigarra acende o verão...

6 comentários:

Anônimo disse...

Ai, que maximo, essas estorias. Tu es uma figura!

Anônimo disse...

olha luiza ta com teu tatu para te dar... beijos

Mariana Mesquita disse...

Eba! Meu tatu! ;.)
Fá, o melhor deste post é a minha foto aos 16 anos. Só bochecha, e calça Mc Keen sob os peitos! Hehehe.

Anônimo disse...

Vou contar essa na minha sala!
Quem sabe assim eles prestam atenção?
E essa foto, hein dona Maricota? A senhora é muito corajosa!

Um abraço sertanejo.

Anônimo disse...

Hahaha, as cigarras te deixaram na mão?
Que menina criativa, viu?
Um abração!
Alê
www.maedegemeas.blogger.com.br

Mariana Mesquita disse...

Poxa, Raimundo... Eu vou ficar achando essa foto ainda mais horrivel do que ela é! Hehehe.
Alê, adorei sua presença aqui! Beijo grande pros dois