Vovó Sylvia, a única avó que me resta de quatro avós muito amados, tem 90 anos e está ficando cada vez mais esquecida. A coisa que me deixou mais triste, ano passado, foi chegar na casa dela - numa época em que eu passava lá várias vezes por semana - e ouvi-la perguntar: "Quem é você?"Eu quase não ligo, porque sei que vovó odeia falar ao telefone, e tenho sempre a impressão de que ela não saberá que fui eu, e não iremos conseguir nos comunicar. Pra piorar, nos dias em que ela fica mais confusa, o telefone faz duas coisas horríveis: ou a deixa completamente irritada, ou muda, gaga, sem saber raciocinar.
Mas hoje a saudade bateu forte e eu resolvi ligar de qualquer jeito - tipo, vou dizer que a amo, mesmo que ela não registre. Aí, liguei.
D'Arc, a babá dela, disse que ela estava no terraço, olhando os carros e o movimento do supermercado em frente, como sempre faz.
-Oi, vovó. É Mariana, tudo bem?
-Tudo.
-Liguei pra dizer que gosto muito de você.
-Obrigada! Eu gosto de manter uma boa imagem! (e ri)
-É pra você saber que eu te amo, e pra não me esquecer.
-Eu não esqueço, tenho medo é de você perder seu emprego (hein?)
-Eu não esqueço, tenho medo é de você perder seu emprego (hein?)
-Eu tou longe, não dá pra ir lhe ver, só de avião. É por isso que eu não vou aí. Quando eu tiver dinheiro, um dia, eu vou.
(Silêncio)
-Eu tou com muita saudade, viu? Se cuide direitinho, você tá bem?
(Silêncio)
-Vó, eu vou embora, depois eu ligo.
-Deus te abençoe.
2 comentários:
:***
bjs
Saudade da veinha, né, Danico? Beijo
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