domingo, julho 24, 2005

Quem mora em mim?

Minha amiga Ádrea me manda um texto publicado hoje, no Globo, com o seguinte comentário:
"Maricota, o que mais me interessou neste texto foi ficar associando as pessoas com as quais me relaciono ou me relacionei, nas mais diversas modalidades de relacionamentos (família, amigos, amores, trastes, canalhas-sinceros e tudo mais), quais são pessoas habitadas e quais são ocas. É no mínimo engraçado. O pior é que nem sei em qual dos dois ‘conceitos’ eu me encaixo. Acho que na verdade tenho minhas épocas ‘habitada’ e outras ‘oca’! (Será possível?) Acho você uma mulher habitada, Nininho um homem habitado, Zé Vaz um homem habitado, Duda um homem habitado (e cita três pessoas notoriamente desabitadas, cujos nomes prefiro omitir) , minha tia-irmã Inês habitadíssima, e até a Jade já é uma moleca habitadinha... hehe. Tem até quem esteja condenado pelo corpo de bombeiros e engenheiros a não ter ‘gente em casa’ por causa do risco de desabamento, quem pra mim, representa este tipo é o meu ex-traste. Enfim, gosto de textos assim, que mexem com a gente. Gostaria de saber escrever assim. Seus textos também me ‘tocam’ como o da sua avó, os que fazem referência a sua sobrinha (linda), o da cena do cara no celular, o da amizade, e muitos outros. Parafraseando Jade: UM BEIJO, UM ABRAÇO E UM CHEIRO!!"

Claro que isso tinha que entrar aqui no sítio, né? Beijos pra ela, amiga de alma linda e chama acesa, que transforma a casinha que ela é num lar perene, pra quem tem a chave.





PESSOAS HABITADAS
Martha Medeiros
( Revista O GLOBO – 24/7/05)


Estava conversando com uma amiga, dia desses. Ela comentava sobre uma terceira pessoa, que eu não conhecia. Descreveu-a como sendo boa gente, esforçada, ótimo caráter. “Só tem um probleminha: não é habitada”. Rimos. É uma expressão coloquial na França – habité – mas nunca tinha escutado por estas paragens e com este sentido. Lembrei-me de uma outra amiga que, de forma parecida, também costuma dizer “aquela ali tem gente em casa” quando se refere a pessoas que fazem diferença.


Uma pessoa pode ser altamente confiável, gentil, carinhosa, simpática, mas se não é habitada, rapidinho coloca os outros pra dormir. Uma pessoa habitada é uma pessoa possuída, não necessariamente pelo demo, ainda que satanás esteja longe de ser má referência . Clarice Lispector certa vez escreveu uma carta a Fernando Sabino dizendo que faltava demônio em Berna, onde morava na ocasião. A Suíça, de fato, é um país de contos de fada onde tudo funciona, onde todos são belos, onde a vida parece uma pintura, im rótulo de chocolate. Mas falta uma ebulição que a salve do marasmo.


Retornando ao assunto: pessoas habitadas são aquelas possuídas, de fato, por si mesmas, em diversas versões. Os habitados estão preenchidos de indagações, angústias, incertezas, mas não são menos felizes por causa disso. Não transformam suas “inadequações” em doença, mas em força e curiosidade. Não recuam diante de encruzilhadas, não se amedrontam com transgressões, não adotam as opiniões dos outros para facilitar o diálogo. São pessoas que surpreendem com um gesto ou uma fala fora do script, sem nenhuma disposição para serem bonecos ventríloquos. Ao contrário, encantam pela verdade pessoal que defendem. Além disso, mantêm com a solidão uma relação mais do que cordial.

Então são as criaturas mais incríveis do universo? Não necessariamente. Entre os habitados há de tudo, gente fenomenal e também assassinos, pervertidos e demais malucos que não merecem abrandamento de pena pelo fato de serem, em certos aspectos, bastante interessantes. Interessam, mas assustam. Interessam, mas causam dano. Eu não gostaria de repartir a mesa de um restaurante com Hannibal Lecter, “The Cannibal”, ainda que eu não tenha dúvida de que o personagem imortalizado por Anthony Hopkins renderia um papo mais estimulante do que uma conversa com, sei lá, Britney Spears, que só tem gente em casa porque está grávida. Zzzzzzzzzzzz.


Que tenhamos a sorte de esbarrar com seres habitados e ao mesmo tempo inofensivos, cujo único mal que possam fazer é nos fascinar e nos manter acordados uma madrugada inteira. Ou a vida inteira, o que é melhor ainda.

6 comentários:

Thais Façanha disse...

Nossa, Maricota, bem legal! Bom ouvir de uma amiga a opinião de que se é "habitado". Sabe que com a descrição da Martha eu fiquei meio na dúvida? E, boba como sou, deu um friozinho na barriga de ser uma dos nomes omitidos... Hahahahaha! Pensando assim, tô mais pra oca mesmo!
Beijo, saudade, Thatá

Mariana Mesquita disse...

Voce é uma casa movimentada, de vinte quartos, dona moça! E sabe disso! É habitada por boas coisas, gente linda de viver.
Beijo! Gosto muito de tu.

Mariana Mesquita disse...

=>Não foi vc nenhum dos nomes omitidos. Aliás acho que nenhuma dessas pessoas vai jamais passar aqui pelo meu humilde sítio, mas como era um texto particular de Ádrea, preferi edittar dessa maneira. Vc é muito amada, Thatá. Por mim, pelo menos. Quem falar mal de vc na minha frente, apanha! Ahahaha

Anônimo disse...

Olha eu aqui,uma 'sem-blog' invadindo o blog dos outros.. he he. Mari, adorei a 'homenagem'. Você me emociona!! Te adoro!!
OBS: Thaís, você desabitada? Impossível!!

Mariana Mesquita disse...

Ô, diaba, meu anjo: que alegria ter vc em minha vida! Se quiser um blogue, mas tiver preguiça, fique com o meu - a casa é sua!
Beijo.

Mariana Mesquita disse...

SANTO E DEMÔNIO
(Fagner / Ricardo Torres)
Raimundo Fagner - 1977


Sou a avenida cheia
De gente rápida e feia
Sou colorida inteira, concorrida e meia
Sou diariamente a dor que me passeia
A dor que me anseia ser
Particularmente rua

Sou um sol brilhante
De um dia incandescente
Sou luz calor calante
Bruxa de um chão doente

Sou diariamente a dor que me passeia
A dor que me anseia ser
Particularmente, lua

Sou toda gente em mim
Santo demônio em mim
Deus e o diabo em mim
Céu e inferno em mim

Sou diariamente a dor que me passeia
A dor que me anseia ser
Particularmente, tua.