
Quando eu tinha uns cinco ou seis anos, uma tia velha do marido de minha mãe (!) me chamou de ‘amostrada’, porque dançava alegre e inocentemente numa festinha de aniversário. Que trauma bobo que isso me causou eu não sei, mas me acompanhou durante o resto da infância e por toda a adolescência, quando eu não tinha coragem de dançar nos ‘assustados’ que a gente promovia no meu prédio. O resultado é que fiquei privada dessa alegria por muitos anos – tive até um namorado metido a dançarino de forro que ficou chateado comigo, pois quando a gente saia eu ficava sentada na mesa com os outros homens, enquanto ele requebrava com as namoradas alheias, depois de muito insistir que eu fosse com ele pro salão. Aos poucos fui aprendendo a gostar de dançar, e hoje esta é uma das coisas que mais gosto de fazer. Nada me da tanto prazer quanto o cansaço que bate, depois de uma noite dançando coco, forro, afoxé, samba, rock... Meus amigos se surpreendem, porque em qualquer show ou festa que eu vá, quero estar perto do som – e danço qualquer coisa, qualquer barulhinho que batam na lata tou lá remexendo. Danço com a alma, ‘jorrando felicidade’, como descreveu uma vez meu amigo Danilo. Isso não quer dizer que eu dance bem, mas que a dança me faz bem. Depois de velha, virei uma tímida muito afoita. E amostrada, pronto!
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