“Fabrico um elefante de meus poucos recursos. Um tanto de madeira tirado a velhos móveis talvez lhe dê apoio. E o encho de algodão, de paina, de doçura” – Carlos Drummond de Andrade
Eu já vi tubarões amestrados, formigas gigantes, caranguejos dançarinos, jacarés no guarda-roupa, lobos que se disfarçavam de chinelo. Eu já criei sapos numa gamela de barro, construí uma cidade no quintal, cavei um buraco de três metros de fundura e lá enterrei todos os meus míseros brincos e anéis. Minha infância foi uma festa preciosa de sofrimento e magia, durante a qual fui podada em muitas coisas, mas nunca na imaginação. A presença do meu pai quando criança também era uma coisa complicada, Sama, e minha mãe achava que Papai Noel era uma invenção pequeno burguesa, mas ao ler a tua história senti pena dos adultos que matam a infância em si e nos outros, e que não sabem rir, e que não sabem enxergar com os olhos de ver. Será que uma dose maciça de Chagall, Amélie Poulain e García Marquez ajudam? Ou será que eles estão destinados à pobreza de ver apenas com os olhos da cara? Que bom que você ainda lembra do elefante, e que ele era azul, e se fez memória e história. Que bom que mesmo te faltando o pedaço tirado pelo beliscão, você é assim tão grande. Um beijo.
Um comentário:
Só hoje pude ver o fenômeno "elefante". Obrigado pelo tratamento carinhoso de "velho".Torço para que vc chegue por aqui (mais de 60). Samarone não foi a primeira criança a sofrer um beliscão. Fui criado no sertão do Ceara, tocando gado, cortando ração para os mesmos.Meus pais, sem recursos; não dispunhamos de energia e confortos que damos aos nossos filhos, nos dias de hoje. Sofri, também, alguns beliscões e não me deixaram feridas indeléveis.Pergunte ao escritor se o mesmo teve uma boa educação em colégios e faculdades "pagas".
Postar um comentário