O Orkut é uma completa perda de tempo, mas tem coisas que conseguimos através dele que não têm preço. Como localizar esse menininho louro da foto. Que hoje é um homão quase sem cabelo, casadíssimo e muito simpático, que eu achei do nada, numa comunidade sobre meu antigo colégio, o Lubienska.
Miltinho, Mônica e Guilherme eram nossos vizinhos na casa das Graças, onde vivi dos meus sete aos dez anos. Dá pra escrever um mês inteiro, só contando nossas peripécias. Mas hoje eu quero falar só de Miltinho, que eu acho que foi de certa forma meu primeiro namorado. Calma!, nunca demos beijo na boca nem pensamos em nada do gênero. Sei lá também se é o caso de usar esse rótulo pra descrever o que a gente fazia. Eu era uma menina tão menina, tão desinteressada de certas coisas... Enfim, vou explicar!
É que olhando pra essa carinha da foto, eu lembrei de uma das nossas brincadeiras preferidas, que se chamava 'pai e mãe'. Eu era a mãe, ele era o pai, meu irmão Gabriel e Mônica, a irmã dele, eram os filhos. Não sei por que motivo Guilherme, o irmão Lithg mais velho, não participava da "família", já que ele sempre integrava as brincadeiras; acho que ela não acontecia todo dia, nem todo tempo, e talvez nesse período ele tenha ficado de recuperação no colégio, por exemplo. Ou estivesse com papeira (caxumba) ou alguma outra mazela normal de criança.
'Pai e mãe' era assim: a gente pegava um lençol grandão, forrava no oitão da minha casa, e deitava todo mundo juntinho. Eu tinha uns oito anos e não fazia a menor idéia de como a abelhinha polinizava as flores e outras histórias que depois li no livro De onde vêm os bebês. 'Pai e mãe' não era brincadeira de médico: a gente não estava interessado nas diferenças e sensações corpóreas. O bom era só deitar a cabeça no braço de Miltinho e ficar quietinha olhando um sabiá grandão que toda tarde vinha cantar, no pé de manga rosa.
Era uma sensação muito boa, de estar protegida e acarinhada. Tão doce, que eu guardo a lembrança até hoje. Eu, que não tive contato semelhante com meu próprio pai, devo ter valorizado muito mais esses momentos que Miltinho - que era mais novo que eu alguns meses, meio estabanado e maluco, escrevedor de poesia e inventor de brincadeiras e travessuras terríveis.
Mesmo tendo passado mais de 20 anos sem ter o menor contato com eles, tenho pelos três irmãos Lithg um carinho enorme. Mas o abraço de Miltinho o faz especial, pro resto da vida.
3 comentários:
Primeiramente gostaria de congratular a autora por um texto muito bem escrito. Não por seu teor e encantamento, até mesmo porque sou suspeito para julgar, vez que me foi destinado um papel singular, do que tratarei mais adiante. E sim por ser uma narrativa que poderia ser facilmente encontrada no prefácio do livro de uma grande romancista.
Nesses tempos modernos em que as pessoas parecem sofrer de uma “dislexia coletiva”, quando muitos têm dificuldades para escrever uma simples carta ou até mesmo rascunhar um bilhete de forma inteligível, é sempre bom poder ter esperanças que a exceção possa vir a ser regra.
Contudo, não posso me ater apenas ao seu notório talento para escrever. É preciso que se saiba que também tenho minhas lembranças, como a estação das mangas e goiabas em nossos quintais quase coloniais, as brincadeiras de rua, o livre acesso de casa em casa, e outras tantas. Uma época que se pudesse traduzir em uma única palavra diria simplesmente, feliz.
Feliz como fiquei nessa tarde tediosa ao conhecer sua perspectiva de momentos tão importantes de nossa infância comum. Certamente algo do que sou hoje devo àquelas lembranças.
Feitas essas considerações, só me resta agradecer a oportunidade de nos conhecermos, os momentos vividos e relembrados, e sobretudo suas palavras que tomo por elogio. Obrigado Mariana!
Surpresa boa, Miltinho...
Pois é, lembra da missa de sétimo dia que a gente rezou pro passarinho que morreu? Da guerra de goiaba de cima dos muros? Das rodadas de Banco Imobiliário? Das "bombas" que a gente produzia com teu laboratório de química? De brincar de Daniel Azulay, tentando adivinhar em qual quadradinho da janela nossa mão ia aparecer? De cavar um buraco no teu quintal pra enterrar nossos tesouros (meu colar, vários objetos queridos de todos nós) e nunca mais conseguir achar?
Ô saudade, ô tempo bom!
Um beijo grande, é muito bom ter vivido tudo isso, e partilhado com vocês.
Ah! E obrigada pelos elogios mas, ao que me lembre, quem tinha jeito pra poeta era você! ;.)
Esse recadinho foi Guilherme, irmão de Miltinho, quem postou lá no Orkut, pra mim, quando me enxeri e fui lá, perguntar se ele lembrava de mim:
"Oi, lógico que lembro, como poderia esquecer uma das melhores epocas da minha vida, lembra da nossa fabrica de perfumes? da fabrica de veneno para ratos feito com pão? das apresentações de teatro em frente da casa..., tivemos uma infancia e tanto!"
Hehehe... verdade! A casa que eu morava virou salão de beleza, tenho medo que seja demolida pra virar prédio, mas vive pra sempre na minha memória.
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